quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Poesia e Psicanálise

Ismael Nery
A falta faz poesia - por Gloria Leal


O anjo Damiel, em "Asas do Desejo" de Wim Wenders, torna-se humano por amor a um mulher. No final do filme, ele escreve: "Eu sei (...) agora (...) o que (...) nenhum anjo (...) sabe." O que Damiel sabe, segundo Betty Fuks (2), é que a condição de mortal faz o sujeito buscar a imortalidade no desejo. Por sua vez, a trapezista Marion conquistou a angelitude ao perceber que a vida e os objetos que nela desfilam são apenas transitórios, mas nem por isso menos belos.
Stuart Schneiderman(3) diz que imortal significa simplesmente não mortal, e não mortal nem sempre quer dizer vivo para sempre ou eternamente. Não mortal é também uma característica dos mortos. "Só os vivos são mortais. A busca da imortalidade, que em geral interpretamos como uma busca da vida eterna, um desejo de negar a morte, é apenas outro nome para o desejo de morte."

Desejo de vida. Desejo de morte. Desejo súbito de fazer uma poesia. Tão necessária. Uma que leve embora essa angústia, o solúço engasgado. Uma que traga de volta o sonho. Poesia é tentativa de realização de desejos. Difusos, confusos mesmo, os sentimentos só serão entendidos pelo autor depois. Depois de dar à luz sua poesia.
Ser falante pode ser praga, mas ser escrevente é bênção. É um dos possíveis destinos da pulsão. De vida? De morte? O poeta não vive tais dicotomios.

Escrever poesia é lidar com o mistério sem o compromisso, alías impossível, de explicá-lo.
Se queremos explicar o mistério, somos cientistas. Se o respeitamos, mesmo privando da sua intimidade, somos poetas e dizemos coisas que não sabíamos saber. Fernando Pessoa(4) pergunta: "Tens como Hamlet, o pavor do desconhecido? Mas o que é conhecido? Oque é que tu conheces, para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?"

O mistério, o inusitado, o imprevisível convivem com a poesia. Também na psicanálise. Entre uma linha e outra, nos pedaços em que não se escreve nada, aí ele surge. O poeta e o inconsciente falam por enigmas.
Escrever como quem inspira (um verso) e expira (outro verso). Exercício respiratório, associação livre de idéias, catarse, espasmo, orgasmo, seja o que for, faz bem. Apesar do sofrimento de não conseguir dizer o que se deseja. Como sempre. Apesar de o desejo não se inscrever, realiza-se, por alguns instantes, o desejo de fazer uma poesia. Plantar amores-perfeitos, narcisos e bromélias na borda do vazio existencial.
Lacan(5) diz que em toda forma de sublimação o vazio será determinante e que toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno desse vazio. Sublinha a importância da linguagem por lidar com o significante que é "aquilo que, na ordem das artes, confere sua primazia à poesia."
A linguagem precede o homem, é condição fundante do humano. Denunciadora e encobridora da falta, ela nos impele à comunicação e nos remete à solidão. Linguagem é crime e castigo. Crime de Adão e Eva, que comeram o fruto proibido do saber e descobriram a sexualidade. Assim, foram expulsos do paraíso animal e condenados à liberdade. Perdemos o instinto, esse fabuloso programa de comportamentos, e ganhamos a pulsão, essa desconhecida.
Ganhamos a dúvida (quem somos? para que somos? somos?, a possibilidade de morrer ( o que será então de mim?), e o desejo de fazer de conta que somos ainda animais naturais e que nossos desejos podem ser satisfeitos. Assim como as necessidades dos animais. Pura ilusão. O desejo do homem é insaciável. A completude tão almejada é impossível. Isto porque o desejo é definido pelo vazio. Um desejo aponta sempre para outro desejo e assim prosseguimos na crença insana de que existe um ou vários objetos adequados que podem ser encontrados no mercado da vida. A ilusão do encontro, chamamos de felicidade. Essa eternidade que logo termina.

Segundo Lacan, o inconsciente é da ordem do não realizado e é estruturado como uma linguagem. Ambos são regidos pela ordem simbólica. os símbolos são criados a partir da ausência da coisa. Falamos e cantamos as ausências, o perdido e o nunca encontrado. Do fort-da do netinho de Freud até Fernando Pessoa:
"E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase. E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais de inventa."

O ato poético lida com o impossível porque revela algo do Real, que é da ordem do impossível. Mas o poeta insiste, insiste em simbolizar o Real e seus infinitos desdobramentos. Insiste no desejo, ou nele o desejo insiste, de fazer outra poesia. Uma que diga melhor o que se quer dizer e não consegue.


"Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever/ No entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo./ Ele está cá dentro/ e não quer sair./ Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira." (Carlos Drummond de Andrade).


O conteúdo latente do poema, como o do sonho, também é mais rico que o manifesto. O poeta aspira ao poema perfeito porque a vida não é perfeita nem completa e ele se sente completo ao escrever. Mas o poeta escreve sem saber por quê.
"Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste: Sou poeta." (Cecília Meireles).

O sentimento poético que vive em todos nós não pode ser transposto para o papel ou para a voz sem perda de substância. Algo se perde na transposição, como o objeto a. Acontece que poesia se faz com palavras. As idéias e afetos servem como substrato. Há que transpirar o inefável e isto exige suor. Não é só derramar uns tantos sentimentos no papel, achar bonito e atravessar melhor a noite. Para a associação de idéias (livre como nenhuma fala de analisando) tornar-se arte, deverá ser trabalhada. Idéias e afetos são areia e água, argamassa da construção construída "só depois". Então você acorda e vai ler o lindo poema da vérspera. Acha um horror. Fuma dois cigarros em seguida, toma algumas providências caseiro-burocráticas e vai dar mais uma espiada no papel. Lê agora como se fosse de outro e de fato o inconsciente é o discurso do Outro. Resolve que pode melhorar o texto e aí começa a carpintaria.
É um trabalho letra a letra, palavra a palavra, linha a linha. Pouco sobra, quando sobra. Michelangelo divide as artes em "artes de pôr", como a pintura, e "artes de tirar", como a escultura. Na poesia ocorrem esses dois movimentos. Para que, além de terapêutica, seja uma boa poesia, é necessário primeiro estender os sentimentos livremente no papel e só depois fazer o corte de palavras. Isto confere intensidade ao texto e arruma seu coração.
A incompletude, o vazio, a angústia, a morte são muito falados na poesia. O comum dos mortais sofre das mesmas perplexidades dos poetas. Assim sou eu. Assim é você. Monte de linhas embaraçadas, monte de palavras angasgadas, monte de todas as coisas vividas e morridas. No mar dos sentimentos, o poeta pesca suas palavras. O céu é do condor e a poesia, assim como a praça, é de todos.

Recomendo fazer poesia, ou tentar. Cantar os seus exílios: paraíso perdido, mãe, pai, marido que foi embora, cidade natal, infância. Cantar até sentir que não está exilado nem sozinho. Somos parte de tudo e tudo parte de nós. Nada passou. Nada se passou a não ser um arrepio. De vida, de morte. Sossega, criança. Você morreu tantas vezes que já deveria estar acostumada.
"A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto." - (Fernando Pessoa)

O poeta russo Sierguéi Iessiénin suicidou-se num quarto do Hotel Inglaterra, em Leningrado. Antes de morrer escreveu, com o próprio sangue, a última poesia. Seu amigo Maiakoviski, que escolheu continuar vivo mesmo sabendo que "Nesta vida morrer não é difícil / O difícil é a vida e o seu ofício", declarou no poema dedicado ao jovem Iessiénin: "Talvez, se houvesse tinta no Inglaterra / Você não cortaria os pulsos." Escrever poesia pode salvar a sua vida. Pelo mesnos de ser aborrecida, pouco vivida, distraída. Ajuda a conviver com o espanto de estar vivo desconfiando que vai morrer. Também salva a vida dos seus mortos, imortalizando-os. Ou enterrando no papel o que tem de ser enterrado. O luto não precisa ser patológico.



Trabalho publicado, originalmente, no Anuário Brasileiro de Psicanálise, 1992/1993, Editora Relume-Dumará.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Allen Ginsberg - "Canção"

O poeta beat Allen Ginsberg - anos 60


Canção


O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -

sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor

- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:

o peso é demasiado

- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.


Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -


sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.



Allen Ginsberg in "UIVO"

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ode ao lago de Furnas




Este lago é mais que um lago.
É uma calma azul que zarpa
junto ao vento.
Um silêncio sereno que vem
sondar-me os pés.
Devaneio que submerge
pensamentos.

Este lago é mais que um lago.
É um céu aquático que
me faz sentir entre
as nuvens.
Um fluir que me deixa
alhures.
Um profundo abraço
de amor
que mantém
meus olhos
solúveis,

mortos e
fechados.



Gabriel Nogueira Ferreira

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Federico García Lorca





Gazel da morte sombria


Quero dormir o sono das maçãs
Afastar-me do túmulto dos cemitérios
Eu quero dormir o sono daquele menino
Que queria cortar o coração em alto mar
Não quero que me repitam que os mortos não [perdem o sangue]
Que sua boca podre continua pedindo água
Não quero saber dos martírios que a erva dá
Nem da Lua, com boca de serpente, que trabalha antes do amanhecer.
Quero dormir um instante
Um instante; um minuto; um século
Mas que todos saibam que não morri
Que há um estábulo de ouro em meus lábios;
Que sou o pequeno amigo do vento Oeste;
Que sou a imensa sombra de minhas lágrimas
Cobre-me o despontar da aurora com um véu
Para que me atire punhados de formigas
E molha com água dura os meus sapatos
Para que resvale a pinça de seu lacrau
Porque eu quero dormir o sono das maçãs
Para aprender um pranto que me limpe de terra
Porque eu quero me juntar com aquele menino escuro
Que queria cortar o coração em alto mar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dylan Thomas


Em meu ofício ou arte taciturna

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou por pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.


Dylan Thomas (1914-1955), "Poemas Reunidos", trad. de Ivan Junqueira

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Henry Miller


"Não temos necessidade de gênio - o gênio está morto. Temos necessidade de mãos fortes, de espíritos que estejam dispostos a abandonar o fantasma e criar carne".


(Henry Miller in Trópico de Câncer)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Depois da transa

"Casal" Ismael Nery



Chega a vez do suor fumegante
sob a fúria dos lençóis
onde as palavras já não bastam
obsoletas
na vasta vertigem
dos suspiros
dos oclusos olhares
que mediam
nossa delicada desolação.



Gabriel Nogueira Ferreira in LEPRA-1ª edição (fanzine)